E a cegueira, é da visão?
É estranho e engraçado passar anos e anos na frente de um lugar sem nunca ter reparado. Anos e dias. Todos os dias sem saber. E negando a existência deste lugar, um dia Florbela resolveu entrar naquela loja, mas lembrou-se de um compromisso inadiável: fazer compras no supermercado.
Passaram-se mais alguns anos e Florbela esquecera-se completamente do lugar. Algo parecia impedi-la de conhecer. Muitos falavam da tal loja, mas ela não dava atenção. Estava muito preocupada com o vazio de sua alma.
Florbela passava despercebidamente pela mesma rua de todos os seus infinitos dias, quando resolveu prestar atenção nas coisas que tinham ao seu redor. Parecia ter redescoberto a andar, a ouvir e principalmente a rir. Viu um dia tão claro, uma luz tão bonita, uma velinha que cantava Noel Rosa. Um menino passeava com seu cachorro. Momentos tão simples e tão mágicos. Pelas ruas da velha cidade, Florbela espionava coincidências, que presenciava todos os dias de sua vida, mas jamais havia percebido. De repente, Florbela acordou, dentro daquela loja. Não era um sonho. Foi atropelada por um senhor que atravessava a Avenida João Pessoa de bicicleta. Um senhor muito bem apresentável por sinal.
Ela se levantou um pouco perturbada, cambaleava. A dona da loja, uma senhora argentina muito simpática, a segurou. Sua insignificância, seus dias reclusão e prostração com o mundo pareciam ter acabado. Muitos que estavam ali diante dela, pareciam preocupar-se com sua situação. A cabeça de Florbela sangrava. Um médico foi chamado pela senhora argentina. E Florbela ficou ali, contemplando seu momento de importância, ainda que um pouco trágico. Ela ria o riso dos loucos, dos dementes, ao perceber que naquele lugar onde ao fim de seus quase quarenta anos nunca havia entrado. Aquele era o lugar mais gracioso que havia conhecido. Todos os livros que queria ter lido, todos os vestidos que gostaria de ter usado, todos os discos que jamais encontrou em lugar nenhum do mundo estavam ali, diante de seus olhos. Durante quarenta anos. Quarenta anos!
No dia seguinte Florbela voltou ao lugar, com todas as suas economias de funcionária pública, e comprou tudo, tudo aquilo que jamais tinha ousado olhar, e que, sua cegueira a tinha impedido de ver. Comprou o que o dinheiro permitiu. Jóias antigas, um divã, livros de Clarice Lispector, de arte, vestidos, peles, discos de Billie Holliday. Saiu dali com um plano. Dirigir um filme, ir para Paris e finalmente viver. É engraçado, mas alguns instantes recheados de detalhes podem conduzir pessoas para os mais variados caminhos, como o de Florbela que ao sair da loja encontrou um olhar que a perseguia, coisa que jamais havia acontecido, e foi convidada para tomar um café no mercado público.
É estranho e engraçado passar anos e anos na frente de um lugar sem nunca ter reparado. Anos e dias. Todos os dias sem saber. E negando a existência deste lugar, um dia Florbela resolveu entrar naquela loja, mas lembrou-se de um compromisso inadiável: fazer compras no supermercado.
Passaram-se mais alguns anos e Florbela esquecera-se completamente do lugar. Algo parecia impedi-la de conhecer. Muitos falavam da tal loja, mas ela não dava atenção. Estava muito preocupada com o vazio de sua alma.
Florbela passava despercebidamente pela mesma rua de todos os seus infinitos dias, quando resolveu prestar atenção nas coisas que tinham ao seu redor. Parecia ter redescoberto a andar, a ouvir e principalmente a rir. Viu um dia tão claro, uma luz tão bonita, uma velinha que cantava Noel Rosa. Um menino passeava com seu cachorro. Momentos tão simples e tão mágicos. Pelas ruas da velha cidade, Florbela espionava coincidências, que presenciava todos os dias de sua vida, mas jamais havia percebido. De repente, Florbela acordou, dentro daquela loja. Não era um sonho. Foi atropelada por um senhor que atravessava a Avenida João Pessoa de bicicleta. Um senhor muito bem apresentável por sinal.
Ela se levantou um pouco perturbada, cambaleava. A dona da loja, uma senhora argentina muito simpática, a segurou. Sua insignificância, seus dias reclusão e prostração com o mundo pareciam ter acabado. Muitos que estavam ali diante dela, pareciam preocupar-se com sua situação. A cabeça de Florbela sangrava. Um médico foi chamado pela senhora argentina. E Florbela ficou ali, contemplando seu momento de importância, ainda que um pouco trágico. Ela ria o riso dos loucos, dos dementes, ao perceber que naquele lugar onde ao fim de seus quase quarenta anos nunca havia entrado. Aquele era o lugar mais gracioso que havia conhecido. Todos os livros que queria ter lido, todos os vestidos que gostaria de ter usado, todos os discos que jamais encontrou em lugar nenhum do mundo estavam ali, diante de seus olhos. Durante quarenta anos. Quarenta anos!
No dia seguinte Florbela voltou ao lugar, com todas as suas economias de funcionária pública, e comprou tudo, tudo aquilo que jamais tinha ousado olhar, e que, sua cegueira a tinha impedido de ver. Comprou o que o dinheiro permitiu. Jóias antigas, um divã, livros de Clarice Lispector, de arte, vestidos, peles, discos de Billie Holliday. Saiu dali com um plano. Dirigir um filme, ir para Paris e finalmente viver. É engraçado, mas alguns instantes recheados de detalhes podem conduzir pessoas para os mais variados caminhos, como o de Florbela que ao sair da loja encontrou um olhar que a perseguia, coisa que jamais havia acontecido, e foi convidada para tomar um café no mercado público.

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