Friday, October 21, 2005

"Brasil, ame-o ou deixe-o"

Nos tempos da ditadura militar foram criadas muitas frases célebres que faziam a população acreditar que o Brasil era o país do futuro. Hoje em dia anúncios publicitários financiados pelo governo andam dizendo que o melhor do Brasil é o brasileiro.
Com a CPI, a corrupção e as centenas de decepções ideológicas, bate uma vontade de desbravar outras paragens, sair dessa república de bananas. Apesar de não conhecer o potencial turístico do nosso país, que é mais conhecido por estrangeiros do que por nós mesmos, muita gente acredita que algum outro lugar possa dar condições de um nível de vida melhor.

Muitos já experimentaram na marra esta sensação, durante os tempos da ditadura autoritária no nosso país, o exílio proporcionou a cruel realidade de estar distante.
Naquela época Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Fernando Gabeira, Fernando Henrique Cardoso, José Dirceu, todos estes e muitos outros, por não esconderem suas convicções foram duramente castigados. Mas porque foi um castigo tão grande? Porque eles tinham em suas manifestações fosse na música ou na política, o desejo de construir um lugar melhor para se viver, com liberdade de expressão, e que lhes foi proibida. "é proibido proibir..." Foi tirado um direito: o direito da palavra, de pedir pela paz, de emitir e proclamar o som em multidões aclamadas pedindo basta. E isso é muito revoltante.
Hoje em dia, essas personalidades nos tem decepcionado um pouco. Fernando Henrique Cardoso, aquele estudante cheio de idéias nos anos 60 se transformou-se em sociólogo e num presidente submisso a pressões externas de FMI, etc..

Caetano Veloso deveria ter morrido a alguns anos. Suas idéias sucumbiram a uma espécie de crítica a coisas que não são construtivas. E pensar que ele foi um dos grandes gênios da música brasileira que proporcionou uma verdadeira revolução poética e de conceitos. Para mim, Caetano Veloso morreu, e esqueceram de avisar.
José Dirceu figurinha antipática mas que naqueles anos demonstrava um interesse pelo socialismo, foi exilado em Cuba, inclusive amigo de Fidel Castro, cativando o carisma dos cumunas brasileiros. Hoje em dia, envolvido num dos maiores escândalos de corrupção da história.

Talvez os que menos me decepcionaram tenham sido Fernando Gabeira e Chico Buarque, que continuam polêmicos e produzindo cultura nesse Brasil tão carente disso.
O problema generalizado desse país é que esses exemplos citados acima, hoje não são grandes referencias, tirando Chico é claro. Um dia, já faz um tempo, eles lutavam por um ideal e talvez tenham percebido que a utopia jamais se concretiza, ficando um pouco mais céticos e corruptos. Quanto a Lula nem quero comentar.

Ultimamente prevalece a máxima ame-o ou deixe-o, mas ninguém ama nem deixa, todos ficam sentados observando a demolição de mitos e preferindo ver a novela América. Todos comentam, "mas a crise está feia, ou vai acabar tudo em pizza", mas alguém, realmente alguém, levanta de sua confortável poltrona para fazer acontecer alguma coisa? Será que a democracia não favorece o fortalecimento do comodismo? Pois o exemplo que temos é de que nos momentos de maior repressão e ditadura surgiram os maiores músicos, os melhores livros, os mais intensos protestos e guerrilhas do Brasil. É lógico que não quero, mas temos uma arma fortíssima em nossas mãos, a comunicação, não da mídia, mas a de emails e outros recursos que podem mobilizar e realizar verdadeiras transformações na maneira das pessoas pensarem, mas que ainda não é totalmente segura nem acessível a todos.

Enquanto isso, vou parando por aqui. Está começando a novela e não posso perder esse capítulo.

Tuesday, October 18, 2005

E a cegueira, é da visão?


É estranho e engraçado passar anos e anos na frente de um lugar sem nunca ter reparado. Anos e dias. Todos os dias sem saber. E negando a existência deste lugar, um dia Florbela resolveu entrar naquela loja, mas lembrou-se de um compromisso inadiável: fazer compras no supermercado.
Passaram-se mais alguns anos e Florbela esquecera-se completamente do lugar. Algo parecia impedi-la de conhecer. Muitos falavam da tal loja, mas ela não dava atenção. Estava muito preocupada com o vazio de sua alma.
Florbela passava despercebidamente pela mesma rua de todos os seus infinitos dias, quando resolveu prestar atenção nas coisas que tinham ao seu redor. Parecia ter redescoberto a andar, a ouvir e principalmente a rir. Viu um dia tão claro, uma luz tão bonita, uma velinha que cantava Noel Rosa. Um menino passeava com seu cachorro. Momentos tão simples e tão mágicos. Pelas ruas da velha cidade, Florbela espionava coincidências, que presenciava todos os dias de sua vida, mas jamais havia percebido. De repente, Florbela acordou, dentro daquela loja. Não era um sonho. Foi atropelada por um senhor que atravessava a Avenida João Pessoa de bicicleta. Um senhor muito bem apresentável por sinal.
Ela se levantou um pouco perturbada, cambaleava. A dona da loja, uma senhora argentina muito simpática, a segurou. Sua insignificância, seus dias reclusão e prostração com o mundo pareciam ter acabado. Muitos que estavam ali diante dela, pareciam preocupar-se com sua situação. A cabeça de Florbela sangrava. Um médico foi chamado pela senhora argentina. E Florbela ficou ali, contemplando seu momento de importância, ainda que um pouco trágico. Ela ria o riso dos loucos, dos dementes, ao perceber que naquele lugar onde ao fim de seus quase quarenta anos nunca havia entrado. Aquele era o lugar mais gracioso que havia conhecido. Todos os livros que queria ter lido, todos os vestidos que gostaria de ter usado, todos os discos que jamais encontrou em lugar nenhum do mundo estavam ali, diante de seus olhos. Durante quarenta anos. Quarenta anos!
No dia seguinte Florbela voltou ao lugar, com todas as suas economias de funcionária pública, e comprou tudo, tudo aquilo que jamais tinha ousado olhar, e que, sua cegueira a tinha impedido de ver. Comprou o que o dinheiro permitiu. Jóias antigas, um divã, livros de Clarice Lispector, de arte, vestidos, peles, discos de Billie Holliday. Saiu dali com um plano. Dirigir um filme, ir para Paris e finalmente viver. É engraçado, mas alguns instantes recheados de detalhes podem conduzir pessoas para os mais variados caminhos, como o de Florbela que ao sair da loja encontrou um olhar que a perseguia, coisa que jamais havia acontecido, e foi convidada para tomar um café no mercado público.